Meu lixo importa

Atualizado: 10 de dez. de 2018
Perigos e potencialidades se escondem por trás da imensidão de um material que nos rodeia sem percebermos. Descubra mais sobre o lixo

Lixo. Um montante que carrega tanto dentro de si, mas que acaba sendo visto como algo inútil ou sem valor. Um material que sempre tem seu destino certo, o caminho mais próximo da lixeira, ou, o da rua mesmo. Nele, são levadas memórias, riquezas, saudades, frustrações e tantos outros sentimentos que em algum momento ocuparam uma parte da nossa vida. O cheiro de uma fruta, as notas que ecoavam das cordas de um violão, o tecido afrouxado de um vestido, ou aquela panela velha da casa da sua avó que fazia as melhores feijoadas. Então, tudo isso foi parar em lugares onde todos os nossos prazeres se encontram. Não importa classe social, raça, etnia ou orientação sexual, porque o aterro sanitário, o lixão ou a esquina da sua casa se tornaram lar da diversidade do nosso consumo. Eles abraçaram todas as antigas importâncias que fizeram parte da sua história e que agora serão esquecidos de vez em um vazio.
Vivemos em dias que refletem o alto nível de produtividade que foi impulsionado no passado. Estamos de passagem na era do consumo, momento que usufruímos sem pensar nas consequências desenfreadas da relação entre homem e produto. Neste período, aprendemos a depreciar os bens com facilidade e acreditamos que eles desaparecem depois do descarte. Mas, o que está acontecendo é uma crise na gestão desses resíduos que, na maioria, são ricos para o reuso, mas eles acabam sendo encarados como empecilho em uma sociedade líquida, conceito criado pelo filósofo e sociólogo Zygmunt Bauman.
Vida Corrida
“Quando Bauman escreve sobre a modernidade líquida, ele está sinalizando que as relações têm se intensificado. Nós realizamos tudo ao mesmo tempo e isso acaba refletindo no próprio mercado, pois, se pensarmos em duas ou três gerações anteriores podemos constatar que as pessoas tinham muitas dificuldades em obter seus bens materiais e, diante disso, elas mantinham esses bens que consumiam usufruindo o máximo deles. Atualmente, a própria lógica do consumo começa a se tornar similar e essa efemeridade, as coisas mudam com muita facilidade e o próprio mercado favorece esse tipo de comportamento”, comenta Regina Amorim, socióloga e antropóloga urbana industrial.
Segundo Regina, os produtos consumidos hoje são obsoletos e destrutivos, estragam muito rápido. Essa questão faz com que desperte nas pessoas o comportamento de substituir os produtos considerados ultrapassados pelo mercado. E quando o sujeito não se integra nessa lógica de adquirir bens, ele passa a ser não aceito no meio social. “Se eu não consumo, eu não sou aceito no ciclo social, eu não participo, eu não sou parte ativa e pertencente a essa sociedade. Consumir significa estar inserido naquele contexto, é ter status, é ter representatividade e localidade social.”

O acúmulo do lixo nunca foi uma questão pensada quando as indústrias estavam produzindo a todo vapor, e por isso se tornou, segundo Bauman, algo mal resolvido em nossa sociedade. Falta o entendimento que a ideia fluida, em que tudo se transforma, não engloba o material que descartamos a curto ou médio prazo. Nunca se joga fora, nossos resíduos ainda permanecem dentro de um todo até desintegrarem, que no caso do plástico leva entre 100 a 450 anos.
Repare, produtos descartados em massa no dia a dia como sacolas plásticas, canudos, copos, latas de cerveja, garrafas pet, maços de cigarro, entre tantos outros, já infestam sem esforço nossa paisagem. Seja no espaço urbano ou no interior, estrada ou asfalto, oceano ou rio, nosso descaso se encontra estampado, escancarado em todos os ambientes. Se seguirmos nesse ritmo não haverá mais pureza dos recursos naturais e iremos nos contaminar. Em estudo divulgado no 26º Congresso Europeu de Gastroenterologia, em Viena, mostra que seres humanos já estão ingerindo microplástico (partículas de plástico de menos de cinco milímetros).
Essa situação coloca em risco não somente o planeta, mas atinge as gerações futuras. “O nosso modelo de comportamento pode extinguir nossa própria espécie”, complementa Regina Amorim.
Mas como podemos mudar essa realidade?
Repense, reutilize, reduza e recicle. Conceitos norteadores de um estilo de vida Lixo Zero ajudam a pensar uma reeducação sobre o tema. Imagine como notar o lixo e reinventá-lo.
É possível que o acúmulo se cesse e que haja mais consciência, que as pessoas se reconheçam em um ambiente agradável, sem poluição e sem mau cheiro. Para que essa mudança aconteça, precisamos imergir no desconhecido e fazer do hoje o nosso amanhã. Necessitamos de mais ação, e mesmo por menor que seja, ela poderá proporcionar a todos uma geração mais sustentável.
Submeta- se ao lixo e descubra como é se sentir em um outro contexto. Integre ambientes e desperte para a realidade.
O processo de entender a questão do lixo requer um aprofundamento no campo estatístico, extraindo desse estudo informações que podem nos contar algo. Será que nossa geração de resíduos cresceu nos últimos anos? Podemos, então, perceber que isso é um problema na sociedade contemporânea?

Segundo a SLU, existem inúmeras hipóteses que possivelmente contribuem para a realidade desses dados, como, por exemplo, o crescimento da população, o aumento do poder aquisitivo do cidadão em determinada época, a realização de eventos públicos que atraem multidões, a vasta oferta de produtos industrializados entre outras.
Sistemas interligados
A produtividade e o consumo fazem parte de uma cadeia em que um depende do outro. Uma engrenagem que só se movimenta quando a outra existe. Há uma rede de interferência entre esses elementos, e, que tal enxergar uma lógica que vai além dessa dinâmica?
Pense no mundo ao seu redor e nas relações que você estabelece dentro dele. Veja os animais, os alimentos, as casas, carros, pessoas, ruas, rios. Reflita, por exemplo, que o leite que você compra no supermercado veio de um rebanho localizado no interior do estado. Ele é extraído de uma vaca, embalado e distribuído em várias cidades. Você consome em sua casa e descarta a embalagem na lixeira. No outro dia de manhã, o caminhão de lixo passa e leva esse material para um aterro sanitário.
Agora, olhe para seu corpo e perceba as funções fundamentais que seus órgãos executam e permitem o seu bem-estar. Esse mesmo leite passa pelo seu sistema digestório, e lá seu estômago e fígado absorvem esse alimento, transformam em nutrientes e armazenam vitaminas. Depois, o restante vai para os intestinos onde é descartado.
Note que existem dinâmicas de circulação, absorção e descarte em todos esses sistemas. Imagine que qualquer problema que atrapalhe essa relação pode interferir em um campo micro e macro, afetando corpo e planeta. Bem, esse é o ponto de vista da tradição chinesa segundo Luciana Pereira, professora e terapeuta de Medicina Tradicional Chinesa na escola Neijing.
“Dentro de uma visão que é um todo, nós somos um micro dentro de um macro e cuidar daquilo que produzimos é extremamente importante. Se diz na tradição chinesa que o Imperador, o coração, e o pulmão, primeiro ministro, exercem funções mais celestes e por isso estão na parte superior do corpo. Já os intestinos, a função de recolher os últimos nutrientes do corpo, transformá-los, seria mais terrestre, e por isso se localizam na parte mais baixa do corpo. Sendo assim, para a tradição chinesa, esses órgãos exercem uma relação direta entre si. Se o intestino delgado não está bem, isso afetará nosso coração diretamente.”
Corpo/planeta

Ilustração: Debora Fernandes
“O nosso corpo, assim como o nosso planeta, está inflamado. Uma inflamação nada mais é do que o acúmulo de líquido e calor. Estamos tendo um acúmulo de lixo e cada vez mais a terra se aquece, esquenta. E fica doente,” complementa Luciana. Segundo ela, hoje grande parte das enfermidades como auto imunes, depressões, tumores têm alguma relação com a microbiota (conjunto dos micro-organismos que habitam um ecossistema) dos nossos intestinos. Considerado como segundo cérebro, o nosso intestino delgado libera 90% da serotonina (substância responsável pela sensação de bem-estar) no nosso organismo.
Com o estudo da medicina chinesa, Luciana sentiu a necessidade de levar esses ensinamentos para a sala de aula e, com o passar do tempo, ela percebeu que os alunos e professores da Escola Neijing passaram a ter mais prazer no dia a dia, porque estavam cuidando dos resíduos que produziam na instituição. “Desde quando começamos esse movimento na escola estamos com uma sensação de prazer, de poder pegar no lixo e separar, porque entendemos que estamos cuidando do nosso corpo para que ele não inflame, para que ele não gere enfermidade.”
Ações como essa mostram que podemos mobilizar uma escola, um bairro. É possível alcançar áreas sociais maiores e realidades distintas. Mas, se estou começando a me reeducar, como podemos, dentro de casa mesmo, fazer algo simples e que tenha um impacto local?
Douglas Gonçalves, confeiteiro e educador ambiental pode nos mostrar que é possível reutilizar alimentos, como, por exemplo, a casca da banana. Saiba como reaproveitar essa casca de uma receita de bolo de banana e fazer um brigadeiro.
O brigadeiro de banana dá um novo sentido para o resíduo, mas ainda caminhamos na incerteza de usá-lo. Só precisamos ter um outro olhar e transformar nosso empecilho em algo renovado. Então, ressignifique essa relação e mude o começo desta narrativa.
Lixo. Um montante de valor que carrega tanto da nossa história dentro de si. O seu destino certo pode ser a compostagem, a doação e a reciclagem. Ele já levou memórias, riquezas, saudades, mas agora esses sentimentos entram em um processo de metamorfose possibilitando que algo novo aconteça. A fruta com cheiro marcante virou adubo, as cordas do violão agora são redes de uma obra de arte, o vestido antigo se transformou em uma bela cortina, a panela inesquecível da sua avó se modificou em um vaso para plantas. Não importa classe social, raça, etnia ou orientação sexual, porque encontramos a diversidade do nosso consumo ressignificada em vários ambientes limpos e bem cuidados. O lixo passa a ser uma nova importância. Busque encontrá-lo e percebê-lo. Não tenha nojo, tenha vontade de descobri-lo. Veja o que é possível e torne o seu/nosso espaço, enfim, protegido.










Comentários